
Cenário Internacional
O mês de setembro de 2026 foi definido, no cenário externo, pela virada do Federal Reserve para um ciclo de alta de juros e pela nova escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que levou o petróleo de volta aos três dígitos. A combinação entre choque de energia, inflação americana resistente e sucessivos episódios de estresse no mercado de Treasuries manteve a aversão ao risco elevada ao longo das quatro semanas, com alívio pontual apenas na reta final do mês.
No início do mês, o relatório de emprego de agosto surpreendeu com a criação de 162 mil vagas, cerca de três vezes o consenso, consolidando a precificação de alta de juros já na reunião de setembro. Em paralelo, o conflito no Golfo entrou em impasse: novas trocas de ataques entre americanos e iranianos e a falta de avanço nas negociações levaram o Brent a subir mais de 6,00% na primeira semana, enquanto o diesel nos Estados Unidos atingiu o maior nível em quatro anos.
Na segunda semana, a escalada se intensificou. O Irã afirmou ter atacado dez navios nas proximidades do Estreito de Ormuz após os Estados Unidos atingirem petroleiros iranianos, os houthis assumiram o controle do porto iemenita de Mocha e a Arábia Saudita reportou nova queda de produção por gargalos de exportação, levando o Brent a romper a marca de US$ 105 por barril. Na agenda de indicadores, o PPI de agosto acelerou para 5,4% em doze meses e o CPI avançou 0,4% M/M, com o núcleo em 0,3% M/M, acima do consenso de 0,2%, o que elevou para cerca de 86,5% a probabilidade de alta de juros implícita nos derivativos. Na Europa, o Banco Central Europeu elevou suas taxas em 0,25 p.p., levando a taxa de depósito a 2,50%, no segundo aperto desde o início da guerra, e sinalizou inflação acima da meta por período prolongado.
A terceira semana foi marcada pela decisão do Fomc, que elevou a taxa básica em 0,25 p.p., para o intervalo entre 3,75% e 4,00%, na primeira alta em mais de três anos. O dot plot sinalizou juros mais altos por mais tempo e a possibilidade de nova elevação ainda em 2026, enquanto Kevin Warsh reiterou, na entrevista coletiva, que as leituras de inflação do verão não indicam melhora das tendências subjacentes e que os riscos seguem altistas. No front geopolítico, ataques houthis a oleodutos na Arábia Saudita, incluindo a rota Leste-Oeste, principal alternativa a Ormuz, e o adiamento das negociações entre países do Golfo e Teerã levaram o Brent a se aproximar de US$ 110 por barril.
A semana derradeira combinou novo estresse nos juros longos americanos e um alívio inflacionário de última hora. O rendimento do Treasury de trinta anos chegou a 5,61%, maior patamar desde 2002, com o de dez anos acima de 5,20%, refletindo a exigência de maior prêmio para financiar a rolagem da dívida americana. Trump rejeitou proposta iraniana de cessar-fogo e reabertura do Estreito, e as conversas mediadas pelo Catar seguiram sem acordo. Em sentido oposto, o encontro entre Trump e Xi Jinping em Washington resultou na prorrogação da trégua tarifária até 10 de janeiro, e o PCE de agosto, divulgado no último dia do mês, veio abaixo do consenso, com alta de 3,4% em doze meses e núcleo desacelerando de 3,3% para 3,0%, reduzindo para cerca de 37% a probabilidade de nova alta de juros já em outubro.
Cenário Doméstico (Brasil)
No Brasil, setembro de 2026 combinou a continuidade do ciclo de cortes da Selic, uma inflação que voltou a acelerar na margem após a deflação de agosto, atividade em desaceleração e uma crise institucional no Supremo Tribunal Federal que se somou à reta final da campanha eleitoral.
O PIB do segundo trimestre, divulgado no primeiro dia do mês, confirmou a perda de tração da economia, com avanço de 0,5% T/T e desaceleração pelo quarto trimestre consecutivo, para 1,9% em doze meses, sustentado sobretudo pela agropecuária (+2,8% T/T) e com fraqueza no consumo das famílias. Os indicadores de julho reforçaram o diagnóstico: a produção industrial avançou apenas 0,2% M/M, abaixo do consenso de 0,5%, o volume de serviços ficou estável (0,0%), as vendas no varejo recuaram 0,8% M/M, bem pior que a projeção de -0,2%, e o IBC-Br caiu 0,22% no mês. A exceção veio do mercado de trabalho, com o Caged de agosto registrando criação de 165,8 mil vagas formais, acima das projeções, e a desocupação estável em 5,3%. No Relatório de Política Monetária, o Banco Central reduziu a projeção de crescimento do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8%.
No campo inflacionário, o IPCA de agosto registrou deflação de 0,32% M/M, mais intensa que o consenso (-0,29%) e a maior desde agosto de 2022, influenciada pela queda de 7,63% na energia elétrica residencial com a incorporação do Bônus de Itaipu; em doze meses, o índice recuou para 4,22%. A leitura, contudo, trouxe composição mista, com forte deflação dos preços administrados e alta do índice de difusão. Na semana derradeira, o IPCA-15 de setembro avançou 0,70% M/M, bem acima da mediana das projeções (0,53%), acelerando para 4,47% em doze meses, com a média dos núcleos subindo 0,34% M/M, o que reacendeu dúvidas quanto ao espaço para cortes adicionais. O Focus refletiu esse movimento, com a mediana do IPCA de 2026 subindo de 4,92% para 4,99% na última semana do mês.
Na política monetária, o Copom reduziu a Selic em 0,25 p.p., para 13,75% a.a., no quinto corte consecutivo, em decisão unânime e sem antecipar a extensão do ciclo. O comunicado manteve linguagem cautelosa, destacando o ambiente externo incerto, o aperto monetário nas economias avançadas, o risco fiscal e as expectativas desancoradas, ainda que a projeção para o horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028, tenha permanecido em 3,2%. A ata, divulgada na semana seguinte, trouxe um parágrafo dedicado ao mercado de crédito, cuja dinâmica foi descrita como consistente com um quadro de desaceleração do crescimento, e deixou a decisão de novembro em aberto.
No front fiscal e político, o governo reduziu PIS/Cofins sobre a gasolina em R$ 0,63 por litro e ampliou em R$ 1,00 por litro a subvenção ao diesel para conter o repasse do petróleo, além de anunciar reajuste de 15% no Bolsa Família, medidas que mantiveram o risco fiscal no radar, ainda que o déficit primário de agosto (R$ 10 bilhões) tenha vindo abaixo do esperado e a dívida bruta tenha alcançado 82,9% do PIB. O principal foco de volatilidade doméstica, entretanto, foi a crise no Supremo Tribunal Federal envolvendo o relatório da Polícia Federal sobre supostas mensagens entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, no âmbito do caso Banco Master, que levou a sessões tensas no plenário e à determinação de retirada do sigilo dos autos, com impacto direto sobre a curva de juros. No campo eleitoral, as pesquisas passaram a apontar empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, com o Datafolha registrando 47% a 45% e levantamentos como AtlasIntel e PoderData mostrando o senador numericamente à frente em alguns momentos, o que alimentou o chamado trade eleitoral a poucos dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
Em termos de desempenho dos ativos domésticos, setembro foi positivo para a bolsa e mais contido para o câmbio. O Ibovespa registrou na primeira semana sua melhor performance semanal desde janeiro, com alta de 5,40%, impulsionado pelo trade eleitoral e pelo retorno do fluxo estrangeiro, e renovou a casa dos 188 mil pontos em 10 de setembro. A partir da segunda quinzena, a crise no STF, o estresse das Treasuries e o IPCA-15 acima do esperado provocaram correção, com duas semanas seguidas de queda, e o índice encerrou o penúltimo pregão do mês aos 183.828 pontos, acumulando alta de aproximadamente 3,6% em setembro. O investidor estrangeiro voltou a ser comprador, com saldo positivo de cerca de R$ 9,5 bilhões no mês até o dia 25, revertendo parcialmente a forte saída de agosto. O Real, por sua vez, oscilou entre R$ 5,09 e R$ 5,23, fechando o dia 29 a R$ 5,22, em leve desvalorização frente ao fim de agosto, pressionado pela alta global do dólar e pela abertura dos juros americanos, enquanto a curva de juros nominal alternou fechamentos e aberturas ao sabor dos yields externos e do noticiário político, encerrando o mês sem tendência definida.
