Carta ao Investidor – O que aconteceu no mercado em Agosto?

Cenário Internacional

Agosto teve dois eixos: o Estreito de Ormuz, que voltou a ditar o preço da energia, e o Federal Reserve, que girou o discurso na semana derradeira.

O petróleo abriu o mês em queda forte. Trump adiou um novo ataque ao Irã, a Opep+ confirmou aumento de 188 mil barris por dia a partir de setembro e o Brent recuou até US$ 79,36, abaixo de US$ 80 pela primeira vez desde o início da guerra, fechando a semana com baixa próxima de 7,00%. O movimento se inverteu nas duas semanas seguintes, quando o Irã ampliou as condições para reabrir o estreito e passou a exigir o fim do bloqueio naval, a retirada das sanções e a liberação de ativos congelados. O barril superou US$ 90 no intradiário, as travessias confirmadas por Ormuz caíram de quinze para seis segundo a Kpler e o contrato futuro chegou perto de US$ 94,20 na terceira semana, máxima do mês, com o Departamento de Energia americano elevando de US$ 82 para US$ 87 a estimativa de preço médio em 2026. No fechamento, o Brent devolveu parte do movimento e recuou a US$ 88,05, com Bessent sancionando mais de 60 entidades ligadas ao Irã e o tráfego pelo estreito ainda estrangulado.

Nos Estados Unidos, os dados vieram benignos até a última semana. O payroll de julho mostrou fechamento líquido de 23 mil vagas contra consenso de criação de 80 mil, com desemprego a 4,1%, e o CPI desacelerou de 3,5% para 3,4% em doze meses, com o núcleo em 2,5%, levando a chance de manutenção do juro a 65,2% em setembro. Jackson Hole virou o jogo: Kevin Warsh estreou como presidente do Fed e foi lido como duro ao dizer que a inflação subjacente não melhorou, e os derivativos na CME passaram a precificar 57,5% de chance de alta de 25 pontos-base em setembro. Os juros abriram, com a Treasury de dez anos a 4,730% e a de trinta anos a 5,213%, o núcleo do PCE ficou em 3,3% em doze meses e o PIB do segundo trimestre foi confirmado em 1,5% anualizado, ante 2,1% no primeiro trimestre.

Nas bolsas, o mês teve duas metades. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq subiram 2,96%, 3,58% e 5,10% na primeira semana, com máximas históricas e a Palantir saltando 29,42%, e o S&P 500 renovou o recorde de fechamento aos 7.798,99 pontos na segunda. O quadro virou na terceira semana, quando o índice caiu 1,43% e o Nasdaq 100 recuou 2,46%, com o Walmart em queda de 9,50% mesmo com receita acima do consenso.

Cenário Doméstico (Brasil)

No Brasil, agosto foi o mês do primeiro corte da Selic com comunicação deliberadamente aberta, de uma desinflação que ganhou tração e de uma fuga recorde de capital estrangeiro da bolsa.

O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto, para 14% ao ano, em decisão unânime, com comunicado bem mais curto que o de junho, sem guidance e deixando setembro em aberto. O Banco Central reduziu a projeção de IPCA de 2026 para 5,1% e manteve 3,2% no horizonte relevante. A ata reconheceu o acúmulo dos efeitos da política restritiva sobre a atividade, mas preservou a ambiguidade, e a leitura do mercado se inverteu na margem: das 36 casas consultadas, 23 passaram a projetar apenas mais um corte no ciclo.

A inflação corrente ajudou. O IPCA desacelerou para 0,07% em julho, menor taxa desde agosto de 2025, e recuou a 4,44% em doze meses, abaixo do teto de 4,5%. O IPCA-15 de agosto registrou deflação de 0,40% no mês, a maior em quatro anos, e 4,24% em doze meses, embora serviços subjacentes tenham acelerado a 0,50% e a difusão subido a 52,04%, o que preserva a leitura de que a convergência ainda depende do núcleo. A atividade perdeu tração, com produção industrial em queda de 1,80% em junho e IBC-Br recuando 0,60%, enquanto o Caged de julho trouxe 58.568 vagas líquidas contra consenso de 115 mil.

O quadro fiscal seguiu como fonte de prêmio. A dívida bruta chegou a 81,9% do PIB em junho, maior nível em mais de cinco anos, o custo médio da Dívida Pública Federal subiu a 12,68% ao ano, o mais alto desde 2016, e a inadimplência do crédito livre atingiu 6,4%, recorde da série iniciada em 2011. O déficit em conta corrente somou US$ 8,11 bilhões em julho, acima da projeção de US$ 6,6 bilhões.

O estrangeiro foi o detrator do mês. O JPMorgan cortou a recomendação do Brasil de overweight para neutra e a saída de capital externo da B3 fechou agosto em R$ 18,4 bilhões, maior fuga mensal da série da Elos Ayta iniciada em 2022, ainda que o saldo de 2026 permaneça positivo em R$ 17,9 bilhões. No campo eleitoral as pesquisas apertaram, com o BTG/Nexus fechando o mês em 46% a 45% no segundo turno.

O desempenho dos ativos refletiu essa combinação. O Ibovespa emendou onze baixas consecutivas até 167.100 pontos, pior série em três anos, e reagiu na sequência, com alta de 2,44% na terceira semana e de 2,7% na última, encerrando aos 175.664 pontos. Na curva, o DI Jan/33 subiu a 14,640% antes de voltar a 14,60% no encerramento e o Jan/29 estabilizou em 14,16%. O dólar oscilou entre R$ 5,08 e R$ 5,1930 no mercado à vista.

Na temporada de balanços, apenas 34% das companhias bateram a expectativa de lucro segundo o Santander, com óleo e gás no positivo e varejo e telecomunicações no negativo. A Petrobras lucrou R$ 52,4 bilhões, alta de 97% e acima do consenso, com R$ 17,4 bilhões em dividendos, e o Itaú entregou R$ 12,4 bilhões com retorno sobre patrimônio de 24,3%. No lado negativo, a Hapvida desabou 33,09% e a Casas Bahia reportou prejuízo de R$ 10,1 bilhões, protocolou recuperação judicial e viu a ação cair 31,82%.

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