Carta ao Investidor – O que aconteceu no mercado em Julho?

Cenário Internacional O mês de julho de 2026 recolocou o conflito entre Estados Unidos e Irã no centro da precificação global. A trégua que havia sustentado o alívio de junho ruiu semana a semana, o petróleo saiu da faixa de US$ 72 para romper os três dígitos, e o quadro se somou a dados americanos mais fracos e a uma temporada de resultados de tecnologia que decepcionou na reta final, compondo um mês de aversão a risco crescente. O mês abriu com o Brent perto de US$ 71,80, após o pior trimestre desde 2020, com queda próxima de 20,00%, e com a Opep+ confirmando o quarto aumento consecutivo de produção, de 188 mil barris por dia a partir de agosto. Na segunda semana, ataques a três navios mercantes em Ormuz levaram Washington a revogar a licença de venda do petróleo iraniano e a retomar ofensivas contra alvos no Irã, com o Brent saltando a US$ 78,02 antes de ceder a US$ 76,30 diante de sinais de mediação de Catar e Paquistão. Na terceira semana, Trump chegou a anunciar, e a abandonar um dia depois, uma taxa de 20% sobre as cargas em troca da segurança do estreito, e o barril fechou a US$ 84,73, acumulando valorização de 12,00% na semana, a maior desde abril. A escalada culminou na semana derradeira: os houthis proibiram a navegação na Arábia Saudita e atacaram petroleiros sauditas, levando o Brent a romper US$ 100 por barril e a disparar a aversão a risco nas bolsas globais, com alívio apenas no fechamento, quando a Reuters informou que o Paquistão buscava um caminho para novas negociações entre americanos e iranianos. Nos Estados Unidos, os dados vieram fracos e desinflacionários. O payroll de junho criou 57 mil vagas ante mediana de 110 mil, com revisões baixistas para abril e maio, e o desemprego recuou a 4,2%, por menor participação. O CPI de junho caiu 0,40%, ante expectativa de queda de 0,10%, e o PPI recuou 0,30%, levando a probabilidade de alta de juros em setembro de cerca de 73% para perto de 60% no CME. A ata do Fomc, a primeira sob Kevin Warsh, mostrou dirigentes divididos e riscos de inflação inclinados para cima; Warsh, no Fórum de Sintra e na estreia no Congresso, manteve a ausência de forward guidance e redobrou o compromisso com a meta de 2%. Trump elevou a pressão sobre a autoridade monetária, afirmou que Warsh enfrenta um conselho hostil e abriu processo para remover a diretora Lisa Cook. O yield da Treasury de dez anos bateu 4,571% no mês e voltou a subir na semana final com o petróleo, cedendo no fechamento com o alívio do barril. Nas bolsas, junho havia fechado negativo para o S&P 500 (queda de 1,06%) e para o Nasdaq (queda de 2,81%), e ao longo de julho o apetite por Inteligência Artificial segurou os índices, com Micron e Meta puxando o setor de chips e a Alphabet estreando no Dow no lugar da Verizon. A temporada de balanços, porém, decepcionou na reta final: a Tesla superou a receita esperada, mas entregou lucro de US$ 0,33 por ação ante US$ 0,55 projetados e caiu cerca de 14,00%; a Alphabet reportou lucro e receita recordes, mas elevou o capex de 2026 para a faixa de US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões, com fluxo de caixa livre negativo, e recuou perto de 7,00%. Cerca de US$ 433 bilhões saíram do valor de mercado das duas companhias no dia dos balanços, e o Nasdaq caiu 2,15% na quinta final, em sessão que combinou os resultados de tecnologia e o petróleo em três dígitos. Na Europa, a ata do BCE veio hawkish, com dirigentes projetando inflação acima da meta até 2027 e leitura de nova alta possível em setembro, enquanto no Banco da Inglaterra Huw Pill defendeu subir juros na reunião de 30 de julho. Na China, as exportações de junho subiram 27% e as importações 36%, ambas acima do consenso, e o PIB do segundo trimestre cresceu 4,3% na comparação anual, sustentando a atividade global em um mês de estresse energético. Cenário Doméstico (Brasil) No Brasil, julho combinou a entrada em vigor do tarifaço americano, a consolidação da aposta de corte da Selic em agosto e uma desinflação que ganhou tração nas expectativas. A audiência do USTR, nos dias 6 e 7 em Washington, girou em torno dos efeitos da sobretaxa de 25%, com CNI, Amcham e Unica mostrando que as exportações brasileiras abastecem a indústria americana e companhias como Coca-Cola, Tesla e eBay pedindo isenções. A medida entrou em vigor no dia 22, com a lista de isentos ampliada para mais de 2.100 produtos, incluindo carne, café, laranja, aviões, petróleo e celulose, e parte das exportações passou a ser redirecionada a outros mercados, com destaque para a China. No campo político, as pesquisas mantiveram Lula à frente. O Atlas/Bloomberg apontou 48,8% a 42,3% sobre Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno no início do mês, o Datafolha registrou empate de 35% a 35% em São Paulo no meio de julho, e a leitura final do Datafolha mostrou o presidente com 40% no primeiro turno, ante 32% de Flávio, e vantagem de 48% a 43% no segundo turno. A disputa em torno do tarifaço migrou para o campo eleitoral, com Flávio pedindo o adiamento da medida para depois das eleições e Lula explorando o embate. Na política monetária, o Relatório de Política Monetária e a entrevista de Galípolo recolocaram o corte de 0,25 ponto em agosto no radar, precificado em cerca de 70% pela curva no início do mês e consolidado após o IPCA de junho, que subiu 0,16% ante mediana de 0,31%, com desaceleração dos núcleos. O IGP-M registrou deflação de 0,50%, e o Focus encadeou três quedas semanais na mediana do IPCA de 2026, de 5,33% para 5,15%, com a Selic de fim de ciclo mantida em 14%. Na direção oposta, a Fazenda elevou sua projeção de inflação de 4,5% para 5,1%, acima do teto da meta, e as